A reconstrução do “gaúcho” e os vários gaúchos
Há que se tratar com especial interesse a reabilitação da figura do
gaúcho, um dos mais fortes símbolos da identidade estadual. Entre o fim
dos anos 40 e o início dos 50 se iniciara uma fase de novo interesse
pelo passado, em vista do rápido desaparecimento das tradições campeiras
com o progresso econômico e a internacionalização dos costumes. Nessa
época apareceramBarbosa Lessa e Paixão Cortes como figuras de proa nesse
processo, iniciando uma série de pesquisas antropológicas quando essa
ciência mal era reconhecida no estado. Segundo Cortes
“Era o auge do pan-americanismo. Para se ter uma idéia, se um camponês
saísse de casa em direção à cidade, carregava uma muda de roupas para
substituir as bombachas quando fosse chegar. Se não fizesse isso era
visto com maus olhos. Era considerado um cidadão de segunda classe. O
próprio chimarrão, na cidade, era consumido apenas dentro da residência
e longe das janelas. Enquanto o modernismo estava na ordem do dia, um
grupo de jovens secundaristas saía na busca de suas raízes. (…) O gaúcho
sempre existiu como o tal centauro dos pampas, o monarca das coxilhas
ligado a um fato épico, histórico e político, e não mais do que isso.
Mas esta é uma figura poética que surgiu para se transformar em um
símbolo. E símbolos são importantes para que se mantenha a identidade do
povo. Só que esta imagem já existia. O que fizemos foi recuperá-la e
dar-lhe uma outra dimensão. Até então, o aspecto social e recreativo era
totalmente desconhecido. Era “Boi Barroso”, “Prenda Minha” e estamos
conversados. Encerrou-se o repertório musical e coreográfico do Rio
Grande. Havia os registros do Cezimbra Jacques e do Simões Lopes Neto,
tinha ali “O Balaio”, por exemplo. Mas como se dança? Como se canta?”.
Essa busca, porém, estava em sua origem mais ligada a um desejo de
reconstrução histórica do que de interpretação, e paradoxalmente iniciou
no ambiente urbano. Em 24 de abril de 1948 aqueles folcloristas, junto
com um grupo de jovens estudantes, fundaram em Porto Alegre o Centro de
Tradições Gaúchas 35. Ali tomavam mate e imitavam os hábitos do
interior, entre eles o da charla (conversa) que os peões entretêm nos
galpões das estâncias. Barbosa Lessa recorda que
“não se tinha muita pretensão de revolucionar o mundo, embora nós não
concordássemos com aquele tipo de civilização que nos era imposto de
todas as formas (…) não pretendíamos escrever sobre o gaúcho ou sobre o
galpão: desde o primeiro momento, encarnamos em nós mesmos a figura do
gaúcho, vestindo e falando à moda galponeira, e nos sentíamos donos do
mundo quando nos reuníamos, sábado à tarde, em torno do fogo-de-chão”.
Desde lá o movimento tradicionalista foi lentamente ganhado visibilidade
e se constituindo num verdadeiro estilo de vida para muitas pessoas
mesmo nos núcleos urbanos. Nos anos 60 apareceram artigos e palestras
sobre o assunto, e também a figura de Teixeirinha, um fenômeno de
popularidade. Em 1971 se realizou a primeira Califórnia da Canção
Nativa, que se ramificou em centenas de outros festivais similares pelo
estado, onde aspectos da música pop também foram assimilados. Esses
festivais deram espaço para expressões politicamente engajadas que
levaram a uma integração entre regionalismos campeiros de vários países
do Cone Sul, cujas histórias tiveram muitos pontos de contato. Mas foi a
partir da década de 1980 que o ritmo desse processo cresceu enormemente,
a ponto de ganhar respaldo da cultura oficial, atrair simpatizantes de
outras origens culturais além da campeira como os alemães e italianos, e
inspirar a criação de centenas de CTGs, além das fronteiras estaduais,
até no exterior. Em 1980 cerca de novecentos mil gaúchos (11,5% do
total) moravam fora do Rio Grande do Sul, levando as tradições locais
com eles. É certo também que divulgação tão maciça e muitas vezes
acriteriosa e desinformada deu margem à formação de estereótipos
mistificantes e hibridismos espúrios, que vêm sendo questionados tanto
na pesquisa acadêmica como na cultura popular, muitas vezes até de forma
humorística.
O gaúcho “típico”, finalmente, não é a única imagem do gaúcho real
contemporâneo. As outras inúmeras etnias e segmentos culturais que
compuseram a sociedade gaúcha conseguiram em anos recentes apreciável
nível de articulação para a conquista de seu espaço. Nas regiões
italiana e alemã as festividades folclóricas são inúmeras, originando
divisas, teses acadêmicas, filmografia e literatura ficcional, além de
um sentimento de coesão social legítimo em função da autenticidade do
testemunho histórico onde se baseiam essas interpretações modernas do
passado. É verdade que as tradições perderam muito diante da sua
transformação em produto à venda e da modernização da vida em geral, e o
que hoje se consome como “tradição” muitas vezes é apenas um eco diluído
e estilizado de uma realidade irremediavelmente perdida, mas esses
movimentos têm conseguido se cristalizar em símbolos eficientes e
cultivar expressões autênticas o bastante para assegurar a consolidação
e preservação de uma memória social significativa e veraz, com o aval de
inúmeros pesquisadores sérios e patrocínios oficiais. Além disso em
muitos pontos do estado ainda se encontram manifestações vivas e
espontâneas dos antigos costumes. A cultura urbana também criou traços
característicos aparentes em seus neologismos, seus hábitos sociais
diversificados e cosmopolitas, no acesso fácil à tecnologia de ponta e à
informação, e no surgimento de um folclore próprio, já objeto de estudo
acadêmico. E como eles os judeus vêm revisitando sua história, os
polacos, os negros, e os outros grupos minoritários, levando à reescrita
de largos trechos da historiografia oficial do Rio Grande do Sul e, no
diálogo entre tais culturas distintas, a uma maior integração interna e
à síntese de novas formas de expressão e arte, algumas de notável vigor
e originalidade.
Na composição da economia destacam-se a agricultura e a pecuária, além
de atividades industriais. O estado do Rio Grande do Sul é
tradicionalmente conhecido como o celeiro do Brasil. Sua produção
agrícola inclui as culturas de soja (5,6 milhões de toneladas); trigo
(905,3 mil toneladas); arroz (4,5 milhões de toneladas); milho (5,5
milhões de toneladas. Na pecuária destacam-se as criações de bovinos (13
milhões de cabeças); ovinos (10 milhões de cabeças); eqüinos (600 mil
cabeças); e suínos (3,8 milhões de cabeças). Existem também reservas
minerais no estado, especialmente cobre e calcário. Em 1992, o volume de
exploração destes minérios chegou a 1,4 milhão e 4,1 milhões de
toneladas, respectivamente. Entre as atividades industriais do estado do
Rio Grande do Sul, destacam-se as indústrias de couro em geral,
calçados, alimentícia, têxtil, madeireira, metalúrgica e química.
Situado fora do eixo de comércio do Brasil com Portugal, coube ao Rio
Grande o papel vital de fornecer o gado que sustentou o ciclo do ouro em
Minas Gerais e o do charque, que era o alimento básico dos escravos e da
população de baixa renda das cidades brasileiras. A partir do início do
século XX, coube também ao Rio Grande a função de “celeiro do país”,
responsável por uma fatia significativa da produção agrícola nacional.
A história do Rio Grande do Sul começou bem antes da efetiva ocupação de
seu território pelos portugueses. Inicialmente, o Estado era uma “terra
de ninguém”, de difícil acesso e muito pouco povoada. Vagavam por suas
pradarias os índios guaranis, charruas e tapes e, vez por outra,
aventureiros que penetravam em seu território em busca de índios para
apresar e escravizar.
Esse quadro foi modificado com a chegada dos padres jesuítas que, no
início do século XVII, na região formada pelos atuais estados do Rio
Grande do Sul e Paraná, e pela Argentina e Paraguai, fundaram as Missões
jesuíticas. Nelas se reuniam, em torno de pequenos grupos de religiosos,
grandes levas de índios guaranis convertidos.
As peculiaridades geográficas da área onde atualmente se encontra o
estado do Rio Grande do Sul, dividido em 11 diferentes regiões
fisiográficas, influíram para retardar a ocupação da terra pelo
conquistador europeu. Passado um século do descobrimento do Brasil,
ocorrido em 1500, a região era quase inteiramente desconhecida pelos
portugueses. Seus campos eram ocupados por três grupos indígenas: o gê
ou tapuia (onde se encontram remanescentes caingangues), que ocupava a
região de “Cima da Serra”, onde hoje se encontram os municípios de Passo
Fundo, Lagoa Vermelha, Vacaria, Bom Jesus e São Francisco de Paula; o
pampeano (charrua, minuano), que vivia no pampa gaúcho e uruguaio
(campos de vegetação baixa, propícios à criação de gado); e o guarani,
que ocupava o litoral, nas margens da lagoa dos Patos e nas vizinhanças
dos grandes rios.
As Missões Guaranis – A partir de 1626, padres jesuítas espanhóis
começaram a fundar reduções ou missões (aldeias orientadas pela religião
católica, onde os índios viviam de acordo com os princípios da cultura
ocidental, em comunidades organizadas pelos missionários jesuítas) na
região oeste do território hoje pertencente ao sul do Brasil, ao Uruguai
e à Argentina.
Durante todo o século XVII ocorreram conflitos freqüentes entre índios e
bandeirantes. Os primeiros tinham apoio dos missionários jesuítas, que
desejavam convertê-los e civilizá-los. Em função desse apoio, diversas
missões foram criadas e destruídas, tendo os índios sido, por vezes,
submetidos a períodos de exílio forçado de suas terras originais.
No final do século XVII e princípios do século XVIII, os índios
iniciaram um retorno gradual às terras que antes lhes pertenciam, sempre
com o apoio dos jesuítas. Foram criados nesse período sete povoados, que
ficaram conhecidos como os “sete povos das missões”. A etnia desses
povos era variada, predominando traços dos guaranis. O governo de cada
aldeia imitava a organização das cidades coloniais espanholas, sendo a
sociedade dividida em classes, segundo o ofício.
Artistas eméritos eram considerados em plano social superior, com
prerrogativas quase de nobreza.
A agricultura era exercida coletivamente, não havendo propriedade
particular. Os instrumentos agrícolas utilizados também pertenciam à
coletividade.
O gado, fator primordial para o sustento dessas populações, era criado
em campos (vacarias) afastados das aldeias, onde existiam boas condições
climáticas e gramíneas de alto poder alimentício. Criavam também
cavalos, ovelhas, cabras, galinhas, porcos, etc.
Dada a facilidade de aprendizagem, não houve problemas em ensinar aos
índios as artes mecânicas em “oficinas” onde aprendizes trabalhavam sob
a orientação de um “mestre”. Todos os artífices trabalhavam para a
comunidade e viviam da produção da comunidade.
Extraía-se a erva-mate e madeira, praticava-se a metalurgia e criava-se
gado. Tendo aprendido a fazer mudas, os índios plantaram grandes ervais
nas proximidades dos povoados. Com a madeira extraída, executavam obras
de arte, especialmente peças sacras, como imagens, candelabros etc.
Os “sete povos” eram formados pelas aldeias de São Francisco Borja
(1682); São Nicolau (1687); São Luiz Gonzaga (1687); São Miguel Arcanjo
(1687); São Lourenço Mártir (1690); São João Batista (1697); e Santo
Ângelo Custódio (1707), município onde hoje podem ser encontradas as
ruínas da igreja de São Miguel, conjunto tombado pela Organização das
Nações Unidas – ONU, como patrimônio histórico da humanidade.
Enquanto floresciam os sete povos no oeste, o litoral era aos poucos
ocupado pelos portugueses.
Em 1680 foi criada a colônia de Sacramento, às margens do rio da Prata
(hoje cidade de Colônia no Uruguai). Fundada como local de contrabando,
tornou-se um dos centros da guerra de fronteiras travada entre
portugueses e espanhóis durante todo o século XVIII.
Em 1726, os espanhóis fundaram a cidade de Montevidéu, a leste de
Sacramento, também na margem esquerda do Prata, para diminuir a
influência de Portugal na região e ampliar o controle da navegação no
Prata. Depois de várias tentativas para conquistar Montevidéu, os
portugueses fundaram o Forte Jesus Maria José, em 1737, atual cidade de
Rio Grande, em território brasileiro. Os conflitos encerraram-se apenas
em 1777, com a assinatura do Tratado de Santo Ildefonso, entre Portugal
e Espanha, pelo qual ficou garantida a soberania espanhola sobre
Sacramento e a posse de Rio Grande pelos portugueses. A região hoje
correspondente ao estado do Rio Grande do Sul teve sua fronteira
definida apenas em 1801, após a assinatura do Tratado de Badajoz.
A partir de 1824, começaram a chegar levas de imigrantes alemães para a
região, o que diversificou a economia, antes baseada nas grandes
estâncias de gado de corte. Os imigrantes instalaram-se em pequenas
propriedades rurais, com produção agrícola diversificada, que passou a
abastecer o estado e ser exportada para as regiões vizinhas. Na parte
sul do estado desenvolveu-se a charqueada.
No século XIX, ocorreram ainda várias rebeliões no Rio Grande do Sul. A
mais longa delas foi a Guerra dos Farrapos, produto de divergências
entre defensores de ideais republicanos e federalistas. Durou dez anos
(1835-45). A pacificação do estado, após outras lutas civis, só ocorreu
a partir de 1928, com o governo de Getúlio Vargas, que mais tarde viria
a ser presidente do Brasil.
Região Serrana – Nas proximidades da cidade de Porto Alegre encontram-se
as cidades de Gramado e Canela, muito procuradas por turistas de todo o
país, por suas belezas naturais e os traços característicos da
colonização alemã. Gramado está localizada a 825 metros de altitude e
tem população de 23.094 habitantes. O clima é ameno, com temperaturas
que podem chegar a alguns graus negativos no inverno. Canela encontra-se
a 837 metros de altitude e sua população é de 31.109. Em Gramado ocorrem
alguns dos principais eventos culturais do país, como o Festival de
Cinema Nacional e o Festival Internacional de Publicidade. A cidade é
conhecida pelo requinte de sua culinária e por sua paisagem natural, que
inclui lagos (lago Negro e lago Joaquina Rita Bier), um parque
municipal, cascatas, etc. Há ainda uma cidade miniatura – o Minimundo –
com reproduções de castelos e casas em estilo europeu, trens e até luz
elétrica. Em Canela o clima pode ser mais frio no inverno, chegando a
temperaturas de -5ºC a +25ºC. O estilo das casas é europeu, com jardins
onde podem ser encontradas flores variadas e bem distribuídas. No
caminho entre Canela e Gramado encontra-se o Parque Caracol, que possui
uma cachoeira com queda de 131 metros, bosques de vegetação tropical e
subtropical, além de um rio, o rio Caracol, no qual existem praias e
pequenas cascatas. O local é um atrativo turístico muito desfrutado por
visitantes de todas as partes do país e do exterior. No caminho para o
parque, a 3 km da cidade de Canela, há uma araucária (pinheiro do
Paraná) de 700 anos de idade, com 42 metros de altura. Ainda na Serra
Gaúcha outras atrações chamam a atenção dos visitantes: o vale da
Ferradura, uma formação de canyon cortada pelo rio Santa Cruz que forma
linda cachoeira no local e as exuberantes paisagens de São José dos
Ausentes e do Parque Aparados da Serra.
Vinicultura – Tendo encontrado clima propício ao desenvolvimento da
vinicultura, os imigrantes italianos que começaram a chegar ao Rio
Grande do Sul a partir de 1875, introduziram esse tipo de cultivo no
estado, desencadeando o processo de produção artesanal de vinho. Hoje, a
história da vinicultura nacional confunde-se com o processo de
colonização da região nordeste do Rio Grande do Sul (Serra Gaúcha), que
é a maior produtora de vinho do país, especialmente nas cidades de
Caxias do Sul, Farroupilha, Antonio Prado, Flores da Cunha, Bento
Gonçalves, Garibaldi, Carlos Barbosa, Nova Milano, Nova Roma, São José
do Ouro, São Marcos e Veranópolis.
A partir de meados de 1970, a indústria vinícola no Rio Grande do Sul
passou por um processo de modernização que resultou em mudanças
significativas no elenco varietal da produção de uvas do estado. O
Centro Nacional de Pesquisa de Uva e Vinho (CNPVU) da Embrapa,
localizado em Bento Gonçalves, vem trabalhando há mais de dez anos em um
programa que envolve a seleção de plantas no campo, formação de clones,
técnicas de indexagem em casa de vegetação, testes sorológicos em
laboratório e termoterapia, com o objetivo de obter matrizes livres de
doenças disseminadas nos vinhedos. Como resultado do programa, a Embrapa
dispõe hoje de oito hectares de matrizes certificadas de mais de 80
cultivares, que forneceram, em 1994, material vegetativo para 1 milhão
de mudas. No que se refere à produção de uvas de mesa no estado do Rio
Grande do Sul, houve aumento considerável do cultivo de castas finas.
Entre as castas brancas são mais cotadas as variedades riesling itálico
e renano, chardonnay e gewurztraminer. Nos tintos, predomina o cabernet
sauvignon, cabernet franc e merlot. Em 1994, foram comercializados
43.294.350 litros de vinho no Rio Grande do Sul, o que corresponde a 91%
da produção nacional.
A Revolução Farroupilha – Durante a fase inicial da colonização alemã,
um fato iria abalar a política e a economia do Rio Grande, causando
reflexos políticos no centro do país e até nos países vizinhos. Foi a
Revolução Farroupilha, que durou de 1835 a 1845. Deflagrada pelos
gaúchos, que não aceitavam a situação de subordinação a que o governo
central submetia o Rio Grande, a Revolução tinha a intenção de proclamar
uma república independente, e levava, para o Sul do continente, os
ideais de liberdade em voga então na Europa.
Também chamada de Guerra dos Farrapos, a revolução só foi contida com
muita dificuldade pelo governo central, que precisou enviar grande parte
do exército brasileiro para o Rio Grande do Sul. Ao final, ciente das
dificuldades que a guerra estava causando – e preocupado com a
eventualidade de uma guerra iminente com a Argentina -, o governo
brasileiro terminou por estabelecer um acordo com os revoltosos,
garantindo que nenhum deles seria punido e que os oficiais que
participaram da revolução seriam reintegrados ao Exército Brasileiro.
A revolução significou uma pausa de dez anos no desenvolvimento
econômico do Rio Grande. Mas, por outro lado, garantiu ao Estado um grau
de respeitabilidade política que nunca antes fora alcançado por qualquer
outro Estado além de Rio de Janeiro e São Paulo, onde se encontravam as
forças econômicas que governavam o país.
Em 1875 começaram a chegar ao Rio Grande imigrantes italianos. Como as
terras da proximidade da capital já estavam ocupadas pelos alemães,
foram encaminhados para a região da Serra. E, aos poucos, se desenvolveu
o eixo básico de industrialização do Estado, que liga a capital a Caxias
do Sul – esta a cidade-pólo da região de imigração italiana -, passando
pelo Vale do Sinos, a região de colonização alemã. Esse eixo tornou-se
vital para o desenvolvimento industrial gaúcho (como é chamado o povo do
Rio Grande do Sul).
Durante este século, a situação econômica do Estado passou por uma
progressiva transformação. No campo, a diversificação agrícola avançou.
Novos cultivos, como o arroz, foram introduzidos. Na década de setenta,
o boom da soja levou um produto agrícola gaúcho ao mercado
internacional. Paralelamente, a pecuária perdeu a condição de atividade
primária única.
A atividade industrial, nascida do artesanato dos imigrantes, se
desenvolveu em um ritmo crescente. O eixo Porto Alegre – Caxias se
transformou na área de maior concentração industrial do Estado. No Vale
do Sinos, cresceu a indústria calçadista, que se tornou uma das
locomotivas da exportação da indústria brasileira de manufaturados. Essa
condição foi mantida até o início da década de 90, quando a produção
calçadista chinesa começou a ameaçar a indústria calçadista nacional. Em
Caxias do Sul, os setores mecânico e metalúrgico ganharam relevância. A
região de colonização italiana se transformou numa grande fornecedora de
peças e componentes para a indústria automobilística nacional.
O crescimento industrial não significou, contudo, o abandono da
agricultura. O Rio Grande do Sul continua sendo considerado, juntamente
com o Paraná, como o Estado celeiro do país, responsável pela maior
produção nacional de grãos. De um Estado que se encontrava à margem da
economia brasileira, o Rio Grande se transformou em uma das bases dessa
economia.
RIO GRANDE DO SUL
LOCALIZAÇÃO: o Rio Grande do Sul, estado brasileiro, fica no extremo sul
da região Sul
FRONTEIRAS: Norte = Santa Catarina; Sul = Uruguai; Leste = Oceano
Atlântico; Oeste = Argentina
ÁREA (km²): 282.062
RELEVO: planície litorânea com restingas e areias, planaltos a Oeste e
Nordeste, depressões no centro
Seu relevo apresenta três regiões naturais, que podem ser facilmente
identificadas: o planalto Serrano, o pampa e a região lagunar. O
planalto Serrano ocupa mais da metade do território do estado,
estendendo-se por toda a parte setentrional em direção ao sudoeste. Na
região serrana, localizada a nordeste, encontram-se altitudes de 900 a
1.000 metros, chegando a apenas 100 metros no vale médio do rio Uruguai.
Na parte meridional apresenta escarpas de cuestas, designadas pelo nome
genérico de Coxilha Grande, que caem para a depressão Central. Nessa
parte do relevo do estado podem ser encontradas extensas campinas e
também regiões de florestas, onde predominam as araucárias e a vegetação
da mata atlântica. O pampa gaúcho localiza-se na parte centro-meridional
do estado e corresponde a um planalto de ondulações suaves, com
altitudes inferiores a 500 metros. A região lagunar na costa atlântica
apresenta paisagem de praias com dunas e restingas, além de enorme
quantidade de lagunas, destacando-se entre as maiores, as lagoas dos
Patos, Mirim e Mangueira
RIOS PRINCIPAIS: Uruguai, Taquari, Ijuí, Jacuí, Ibicuí, Pelotas, Camacuã
Os rios que banham o estado pertencem à bacia do Prata e o principal
deles é o rio Uruguai, formado pela junção dos rios Canoas e Pelotas, na
divisa do estado do Rio Grande do Sul com o estado de Santa Catarina
VEGETAÇÃO: campos (campanha gaúcha) a Sul e Oeste, floresta troplical a
Leste, matas das araucárias a Norte, mangues litorâneos
CLIMA: subtropical
Predomina no estado do Rio Grande do Sul o clima subtropical, sendo que
na região do planalto Serrano o clima é subtropical de altitude, com
temperaturas médias inferiores a 20º C e chuvas abundantes, regularmente
distribuídas. Devido à latitude, na região do pampa gaúcho as médias
térmicas são inferiores a 18ºC e as chuvas são relativamente escassas. A
região lagunar do litoral caracteriza-se pela escassez de chuvas
MUNICÍPIOS (número): 467 (1996)
CIDADES MAIS POPULOSAS: Porto Alegre, Pelotas, Caxias do Sul, Canoas,
Santa Maria, Novo Hamburgo, Viamão
HORA LOCAL (em relação a Brasília): a mesma
HABITANTE: gaúcho
POPULAÇÃO: 10.187.798 (2000)
DENSIDADE: 36,11 habitantes p/km2
ANALFABETISMO: 6,1% (2000)
MORTALIDADE INFANTIL: 22,2
CAPITAL: Porto Alegre, fundada em 26/3/1772
HABITANTE DA CAPITAL: porto-alegrense
Cultura e sociedade
As últimas décadas confirmaram o Rio Grande do Sul como uma voz
importante, dinâmica, atualizada – sendo por vezes até vanguardista – e
politicamente engajada no cenário cultural brasileiro. Em todo o estado
existem centros culturais e universidades em atividade intensa. Num
panorama geral desse período se destacam alguns pontos importantes,
entre eles:
a recuperação da memória social, da cultura imaterial e do folclore,
revelados no resgate da figura do gaúcho, dos imigrantes, do negro e
outros grupos minoritários, dos bens materiais com a preservação da
arquitetura antiga e a multiplicação dos museus histórico-artísticos, e
nos grandes investimentos em cultura, patrimônio e turismo cultural;
a criação de uma cultura decididamente cosmopolita nos grandes centros
urbanos;
a conscientização sobre os problemas do meio ambiente, com início de
movimentos ecológicos e a evidência do interesse governamental na
criação de leis ambientalistas e de áreas de preservação, e junto com
isso se valorizou o cenário paisagístico do estado, com o aquecimento do
setor turístico;
a revelação do estado de abandono e pobreza em que se encontravam as
populações indígenas;
a problematização do convívio social em cidades, com a elevação dos
índices de crime com ameaça à vida e à propriedade, gerando um
sentimento geral de insegurança. Em todas as áreas com deficiências
foram tomadas medidas saneadoras, embora ainda muito falte fazer e as
reclamações da sociedade sejam constantes.
Em retrospecto, no início dos anos 1980 a sociedade civil começava a
reconquistar seu espaço de representação política. A produção artística
estadual, bem como a brasileira, que haviam sido mantidas sob a pressão
da censura, rearticularam-se sob uma forma altamente politizada,
reivindicando a normalização da vida institucional e cultural
brasileira. Porto Alegre iria conduzir os principais avanços. Sandra
Pesavento afirma que neste período
“em Porto Alegre começa o movimento local ‘Deu Pra Ti anos 1970’ que
comemorava o fim da década. A geração que crescera com o AI-5 e os
deserdados dos anos 1960 e 70 reclamavam um outro país e uma outra
cidade em seus sonhos”.
Neste novo panorama da vida urbana portoalegrense, um dos espaços mais
importantes foi o bairro Bom Fim e seus bares, formando quase uma
república independente encravada no coração da cidade. Ali se reuniam os
principais líderes da atividade contestatória da época, freqüentadores
de diferentes ideologias, que viviam utopias transformadas em estilos de
vida – como os punks, os rockers, darks, junto com cineastas, filósofos,
poetas e literatos – das quais resultaria a definição de identidade de
toda uma geração. Foi o ponto de efervescência da cena musical
underground epop, com o surgimento de várias bandas e cantores que
marcaram a música local, como Os Replicantes, Bebeto Alves, Os
Cascavelletes, Nei Lisboa, TNT, Graforréia Xilarmônica, entre outros, e
que foram louvados pela crítica do Brasil. Novamente Juremir Machado da
Silva esclarece:
“Criamos um território de combate. Ali conviviam aqueles que estavam
colocando em xeque os valores sociais. Mas, mais do que isso, estava na
ordem do dia a discussão de um projeto político para a sociedade”.
Outras áreas que cresceram foram o teatro e o cinema, com a edição de
grandes festivais como oFestival de Gramado e o Porto Alegre em Cena e o
surgimento de muitos realizadores talentosos. Literatura, artes
plásticas, poesia, música, filosofia, e outros ramos das artes e
humanidades acompanharam o florescimento. Alguns de seus artistas, como
Roberto Szidon, Vera Chaves Barcellos, Luis Fernando Verissimo, Jorge
Furtado, Moacyr Scliar e Regina Silveira, são nomes internacionais, e
existem muitíssimos outros que são reconhecidos em âmbito nacional. O
estado já sedia uma Bienal importante, a Bienal do Mercosul, recebe
shows e espetáculos do Brasil e do exterior, e organiza eventos de
grande repercussão como o Fórum Social Mundial. O esporte igualmente
conheceu grande progresso; atletas como Daiane dos Santos e Ronaldinho
Gaúcho são estrelas de fama mundial; os velejadores Nelson Ilha, José
Luís Ribeiro e Fernanda Oliveira já trouxeram muitas medalhas
panamericanas incluindo uma olímpica, André Luiz Garcia de Andrade foi
duas vezes medalhista paraolímpico com ouro em Atenas, enquanto que o
Inter e Grêmio, de já longa trajetória, são equipes de futebol que se
colocam entre as mais conhecidas do Brasil, tendo ambas conquistado
vários títulos internacionais e possuindo grandes torcidas.
História recente
Os que defendiam a redemocratização do Brasil conquistaram seu objetivo
em 1985, em meio a intensa mobilização da sociedade. Em Porto Alegre os
comícios pelas Diretas Já reuniram 200 mil pessoas. Mas quando assumiu
Pedro Simon, o primeiro governador democrático, o estado estava à beira
da falência, com um aumento de 4.185% no déficit público apenas nos dois
anos anteriores, e explodiam vários movimentos de protesto entre as
classes produtoras e vários outros setores da sociedade, como os
professores e os servidores públicos. Mesmo conseguindo sanear as
finanças estaduais em proporção considerável, Simon não dispôs de
excedentes para muitos investimentos. Uma das medidas adotadas pelo
governo foi a criação dos Conselhos Regionais de Desenvolvimento
(Coredes), para a aplicação dos investimentos possíveis em concordância
com as necessidades apontadas por lideranças regionais. Nessa época a
prefeitura de Porto Alegre instituiu o programa do Orçamento
Participativo, para compartilhar com a sociedade a responsabilidade
pelas decisões, tornando-se logo um modelo administrativo para outras
cidades; articulou-se o MERCOSUL, e em vista de sua situação geográfica
central, o estado assumiu na nova organização um papel de destaque. Um
pouco mais adiante o governador Antônio Britto iniciou uma polêmica
administração que envolveu o enxugamento do quadro funcional do estado
em um programa de demissão voluntária e redução dos Cargos em Comissão,
vendeu ou fechou empresas públicas, reorganizou o sistema financeiro
estadual e buscou atrair investimentos estrangeiros através de grandes
isenções fiscais e incentivos. Os 2,3 bilhões de reais que conseguiu com
as privatizações foram gastos principalmente na amortização da dívida
pública, e a falta de incentivos do governo fez com que a indústria
entrasse em grave crise, falindo várias empresas de pequeno e médio
porte. Olívio Dutra, do Partido dos Trabalhadores, fez um governo
voltado para a causa social, fixando no campo trabalhadores antes sem
terra e criando reservas para os índios; fomentou o ensino; criou
programas de emprego para o jovem; apoiou a polícia e trouxe para o
nível estadual a experiência que tivera com o Orçamento Participativo na
prefeitura de Porto Alegre. Mas quando entregou o cargo para Germano
Rigotto a dívida do estado chegava a 4 bilhões de reais. Sem meios para
grandes investimentos, ele dedicou-se a captar recursos externos para
cobrir a dívida e reduziu os gastos governamentais, além de estabelecer
alianças com os outros governadores do sul e procurar criar linhas
fortes de diálogo com os vários setores da sociedade.
Apesar de o Rio Grande do Sul ser um dos estados brasileiros mais
endividados, com cerca de 30% de seus ativos (2005) sob forma de dívida
ativa, praticamente toda em cobrança judicial, e sendo obrigado a
emprestar recentemente US$ 1,1 bilhão do Banco Mundial para
reestruturação da dívida pública, sua situação geral no presente é
bastante positiva. Segundo o relatório de 1998 da ONU o estado alcançou
um IDH superior à média nacional, com 0,869 pontos, conduzido pela boa
distribuição de renda e o alto nível de escolarização, permanecendo o
analfabetismo abaixo dos 10%. Em 2007 o PIB estadual era o quarto maior
do Brasil, chegando a R$ 175 bilhões, e o PIB per capita estava em R$
15,8 mil. A expectativa de vida está na casa dos 70 anos, e a população
total ultrapassou os 10 milhões de habitantes, sendo que 80% dela vive
em zona urbana, embora ainda cerca de 40% dos recursos estaduais sejam
gerados no campo. Festas de produção como a Festa da Uva, a Expointer, a
Fenasoja e a Fenarroz já constituem eventos internacionais, onde se
realizam negócios vultosos. O Rio Grande do Sul é também atualmente um
dos maiores produtores e exportadores de grãos do país, e esses fatores,
junto com as boas condições das estradas, telecomunicações e energia e
os programas de fomento econômico do governo estadual, o situam como o
estado brasileiro mais atraente para investimentos nacionais e
estrangeiros. Cabe ressaltar que as universidades têm se tornado em
ativos centros regionais de pesquisa em vários campos, introduzindo uma
série de novas técnicas e recursos tecnológicos nos setores produtivos e
aprofundando a produção intelectual, fomentando as economias e a cultura
das áreas onde se localizam com um trabalho altamente qualificado. O
governo do estado também têm se juntado a esse esforço acadêmico
investido na pesquisa em ciência e tecnologia, havendo vários programas
oficiais para amparo aos pesquisadores.
A boa posição geral do estado esconde, porém, sérias disparidades
regionais. Na região oeste os índices de mortalidade infantil estão
entre os mais altos do Brasil; as culturas tradicionais nas colônias
evidenciam sério depauperamento com a ruptura das ligações com o passado
diante da modernização generalizada; as grandes concentrações urbanas
enfrentam desafios difíceis no que diz respeito à habitação,poluição,
emprego, segurança e outras questões básicas de infraestrutura e
serviços. A área plantada vem diminuindo e as grandes redes de comércio,
serviços e indústrias competem com a pequena empresa, desestruturando os
pequenos mercados regionais, um sintoma da globalização que tem
caracterizado a economia mundial em anos recentes.
Resistência intelectual
Nos anos de chumbo, com o ambiente rigorosamente controlado, a vida
intelectual independente sobrevivia em guetos. Um dos mais célebres foi
a “Esquina Maldita”, em Porto Alegre, localizada diante do campus
central da UFRGS. De acordo com Nicole dos Reis, foi
“um ponto de discussão das questões políticas locais e nacionais pelos
intelectuais e artistas da época. Era um surgimento de um espaço de
contestação em um bairro, o Bom Fim, que é citado (…) como o principal
ponto de sociabilidade dos componentes desta rede social”.
Juremir Machado da Silva complementa, reforçando sua importância,
dizendo que ela foi um espaço em que
“intensificou-se as lutas pela emancipação da mulher, fortaleceu-se o
respeito pelos homossexuais, combateu-se o machismo, viveram-se
radicalmente os sonhos das relações abertas e da liberdade sexual. Ou
seja, partiu-se para a defesa das diferenças. Pela esquina maldita,
Porto Alegre mergulhou na pluralidade cotidiana, caminhou em direção ao
direito à singularidade e aprofundou-se no exame e na recusa do
conservadorismo moral”.
Durante a ditadura militar
Em 1962 Meneghetti foi reeleito, numa coligação que contou com o apoio
de grandes forças conservadoras, enquanto os trabalhistas estavam
divididos com o surgimento do trabalhismo renovador de Fernando Ferrari.
Meneghetti representava a opção mais sensata para aqueles importantes
setores da sociedade que, temendo o avanço comunista, estavam preparando
o golpe militar de 64, quando o governador desempenhou um papel de
relevo. Articulou ligações decisivas com líderes nacionais e na
madrugada de 1º de abril de 1964 transferiu o governo estadual para
Passo Fundo, a fim de não ser deposto pela resistência que se organizava
em Porto Alegre pelas forças fiéis a Jango. No dia 4, após Jango se
retirar para o exílio no Uruguai, Meneghetti voltou à capital, conduzido
por uma força combinada de unidades da 3ª Divisão de Infantaria do
Exército, sediada em Santa Maria, e de tropas da Brigada Militar.
O movimento militar consolidou-se através da força. De imediato se
verificaram reações em várias esferas, incluindo manifestações de rua
antigolpe, mas todas foram reprimidas com violência. O prefeito de Porto
Alegre, Sereno Chaise, foi preso, e junto com ele centenas de pessoas.
Mas em sua maioria foram libertados pouco depois na primeira semana.
Entretanto a repressão permaneceu como o recurso usual de preservação da
nova ordem, justificada como medida de segurança nacional, e logo
aconteceram outras prisões, junto com o fechamento de jornais, das ligas
camponesas, dos sindicatos e da União dos Estudantes, cassações de
políticos, extinção dos partidos e expurgos de professores das
universidades. Também se criou o sistema de eleição indireta para
governador. O principal teórico do regime foi o general gaúcho Golbery
do Couto e Silva, que assumiu a chefia do Serviço Nacional de
Informações, embora ele pessoalmente não fosse um adepto da linha dura.
Até 1968 os estudantes permaneceram como a principal força de oposição
aos militares, desafiando-os em vários confrontos. Nesse mesmo ano foi
instituído o AI-5, que desencadeou novo ciclo de cassações, generalizou
a censura à imprensa e a oficialidade passou a se valer da tortura e
morte como meio de silenciar as vozes contrárias.
Entrando nos anos 1970 o regime militar atravessava sua fase mais
rigorosa, mas ao mesmo tempo o país iniciava uma fase de euforia com a
conquista do tricampeonato mundial de futebol e com o aceleramento
econômico, num ciclo conhecido como o Milagre Brasileiro, quando o
crescimento chegava a mais de 10% ao ano. Com isso se realizaram grandes
obras públicas nas cidades, em especial Porto Alegre, e o estado passava
a ser um dos motores da economia nacional por meio do enorme incremento
da cultura da soja, então o principal produto do estado e o mais
importante item das exportações do Brasil, com crédito subsidiado,
isenção de impostos e massivos investimentos na mecanização das
lavouras. Com a soja em alta os produtores enriqueceram e a concentração
de terras aumentou, e os rendimentos públicos foram aproveitados também
na expansão das redes de assistência médica e escolar, mas a mecanização
expulsou o trabalhador do campo agravando o êxodo rural. A ênfase em
apenas um setor produtivo, protegido por diversos incentivos, acabou por
desequilibrar a economia do estado com uma grave crise fiscal,
exacerbada com a subida do preço do petróleo, levando ao déficit público
e a um severo endividamento externo.
Em meados da década, contando com o apoio da Igreja Católica, a oposição
conseguira se reorganizar em torno do MDB, o único partido oposicionista
autorizado. Em 1974 aconteceu em Porto Alegre o primeiro debate político
“livre” transmitido pela televisão brasileira, quando se enfrentaram os
candidatos gaúchos ao senado, Paulo Brossard, do MDB, e o governista
Nestor Jost. O planejamento e a realização deste evento foram feitos com
extremo cuidado pela TV Gaúcha, evitando pontos mais sensíveis de
polêmica, mas mesmo assim foi um divisor de águas. O resultado das
eleições confirmou o predomínio do MDB em todo o país, e se iniciava
lentamente a fase de abrandamento do regime militar. O governador Sinval
Guazzelli teve assim de dialogar com a oposição para poder governar. Mas
outros setores do governo, mais radicais e descontentes com as novas
concessões, conceberam ações independentes de repressão a fim de
desmoralizar o governador, tornando-se emblemático o sequestro de Lilian
Celiberti e Universindo Diaz, que foram levados ao Uruguai e lá
torturados e condenados por crimes políticos, como parte da Operação
Condor, uma aliança político-militar entre os vários regimes militares
da América do Sul com o objetivo de coordenar a repressão aos opositores
dessas ditaduras. De qualquer forma o processo de distensão era
irreversível. Em 1979, em iniciativas pioneiras, o estado começou um
processo de anistia dos perseguidos políticos, quando a Assembléia
homenageou os cassados, a Câmara municipal de Porto Alegre reabilitou
vereadores e a prefeitura de Cruz Alta readmitiu servidores expulsos
pelos militares. Ao mesmo tempo os partidos voltavam a ter seu
funcionamento autorizado e renascia no Rio Grande o movimento sindical,
com a eclosão de várias greves, mas não sem enfrentar repressão
violenta, o mesmo acontecendo com a articulação do Movimento dos Sem-Terra.
Cultura e outros indicadores entre 1930 e 1960
Na cultura os principais movimentos desses trinta anos aconteceram na
capital. Foi importante nesta época a criação em 1934 da Universidade de
Porto Alegre, de âmbito estadual, que foi a antecessora da UFRGS. Pelo
fim dos anos 1930 o Modernismo já estimulava um debate intenso entre a
elite pensante sobre os novos rumos que a arte vinha tomando. Esse
movimento foi introduzido em Porto Alegre primeiro pelas artes gráficas,
com destaque para as ilustrações em revistas como a Revista do Globo,
que tinha grande circulação, e que mantinha em suas oficinas um grupo de
talentosos ilustradores, alguns dos quais mais tarde definiriam o perfil
de toda a melhor arte local e estadual. Entre eles estavam Ernest
Zeuner, Edgar Koetz, Francis Pelichek e João Fahrion Para os negros, que
vinham até então sendo continuamente desprezados pela sociedade, o ano
de 1943 representou o marco inicial de sua mobilização, quando se fundou
a União dos Homens de Cor, que cinco anos mais tarde já estaria
ramificada por mais dez estados da Federação
Porto Alegre nos anos 1950 já tinha seu desenho largamente transformado
pela arquitetura modernista, que incluía grandes melhorias na planta
urbana e grandes prédios públicos. A cidade já realizava sua Feira do
Livro, dispunha de um museu especialmente dedicado às artes, o MARGS,
uma universidade federal, a UFRGS, ouvia os concertos de sua nova
orquestra sinfônica, a OSPA, e nomes como Mario Quintana, Aldo Obino,
Lupicínio Rodrigues, Dante de Laytano, Aldo Locatelli, Érico Veríssimo,
Manuelito de Ornelas, Paixão Côrtes, Walter Spalding, Bruno Kiefer,Túlio
Piva, Barbosa Lessa, Armando Albuquerque, Ado Malagoli e Ângelo Guido,
entre muitos outros, já eram referência nos campos da literatura,
poesia, historiografia, tradicionalismo e folclore, artes plásticas,
música e crítica de arte.
Na virada para a década de 1960 a vida boêmia de Porto Alegre
enriquecera com um forte colorido político e cultural, reunindo
expressivo grupo de intelectuais e produtores artísticos influentes,
alinhados ao Existencialismo e ao Comunismo. Entre o fim da década
anterior e os anos que precederam o golpe de 64 foram montadas peças
teatrais de vanguarda, em abordagens polêmicas e desafiadoras do status
quo; as artes plásticas mostravam uma feição realista/expressionista
muitas vezes de cunho social, regionalista e panfletário, destacando-se
a atividade de artistas como Francisco Stockinger, Vasco Prado, Iberê
Camargo e os membros do Grupo de Bagé (de fato atuantes na capital) e do
Clube de Gravura de Porto Alegre. Nessa época a Livraria Vitória se
tornara a maior arena de discussão filosófica e política.
Nos anos 1950 o estado apresentava uma das melhores perspectivas de vida
do país. A vida do gaúcho se estendia em média até os 55 anos, 30% acima
da média nacional, enquanto que a mortalidade infantil era metade da
brasileira; a incidência de tuberculose estava em franco declínio;
iniciava-se a fluoretação da água potável; havia cerca de dois mil
médicos em atividade e mais de vinte mil leitos hospitalares
disponíveis. O ensino por todo o estado atingia um grau de sensível
avanço, expandindo-se bastante para a zona rural, e com grandes colégios
atuando em muitas cidades, sendo que para isso se contou frequentemente
com o esforço dos religiosos, especialmente os católicos, mantenedores
além de colégios também de hospitais, asilos e outras obras
assistenciais. No fim da década de 1950 havia mais de duas mil escolas
primárias, e as faculdades se multiplicavam, chegando a quase 150. O
número de cidades com mais de cinco mil habitantes chegava a cerca de 70
e se patenteava a conurbação de Porto Alegre com as cidades vizinhas,
formando uma região metropolitana com mais de 800 mil habitantes, quando
o total do estado ultrapassava 5 milhões.
Anos 30 a 60
Em 1928 Getúlio Vargas sucedeu a Borges de Medeiros, e foi mais um
castilhista no poder. Buscou o apoio dos estancieiros representando a
classe junto ao governo federal, e protegendo os sindicatos que eles
estavam organizando. Descobrindo nos custos de transporte o maior
problema, ampliou as ferrovias e incentivou a primeira companhia aérea
do estado, a futura VARIG. Para facilitar o crédito, fundou o Banco do
Estado do Rio Grande do Sul. Sua maior proeza, contudo, foi a dissipação
de antigas rivalidades políticas que afligiam o Rio Grande do Sul desde
muito tempo. O fruto disso foi a construção da Aliança Liberal, da qual
foi o candidato às eleições nacionais em 1930, vencendo a competição,
contudo, Júlio Prestes. Mas este não chegaria a tomar posse, sendo
deposto pela Revolução de 30, que guindou Getúlio à Presidência com
decisiva participação dos gaúchos.
Getúlio Vargas assumiu o governo levando sua herança política
castilhista e a experiência que tivera com os sindicatos gaúchos, e
diz-se que foi uma fase de “gauchização” da política do Brasil, mas
temperada com os ideais tenentistas. Decretou a intervenção nos estados
e através da Constituição de 1934 introduziu reformas importantes como o
voto secreto e obrigatório para maiores de 18 anos; o voto feminino;
previu a criação da Justiça do Trabalho e da Justiça Eleitoral, entre
outras coisas. Seu governo instituiu uma versão do castilhismo conhecida
comopopulismo, pois buscou atrair as classes populares na construção de
uma nova sociedade. Tinha bons propósitos, mas eles não bastaram para
que a oposição se calasse, e em pouco tempo movimentos se organizaram em
vários pontos do país para removê-lo do Catete. No Rio Grande do Sul a
oposição encontrou forças em José Antônio Flores da Cunha, o interventor
indicado pelo próprio Vargas, e em intelectuais como Dyonélio Machado,
um dos líderes locais da Aliança Libertadora Nacional, de esquerda. A
reação de Vargas foi dura – Flores da Cunha teve de se exilar e os
membros da ALN foram reprimidos violentamente, sendo usada até a tortura.
Por outro lado, diversas reformas impostas pelo governo federal não
estavam sendo cumpridas no estado, pois a elite industrial e comercial
resistia a abrir mão de direitos tradicionais. Novas greves foram
organizadas, as entidades operárias romperam relações com o Ministério
do Trabalho, e o clima se tornou tenso novamente nos círculos da
produção.. Também a política estadual continuava convulsionada, pois
nesse momento o Brasil, amedrontado com a “ameaça bolchevique”, se
encontrava largamente influenciado pelos regimes totalitários europeus
como o Nazismo e o Fascismo. A repercussão disso no estado foi
especialmente intensa pois os descendentes dos imigrantes italianos e
alemães se haviam identificado com o que se passava em seus países
ancestrais, e nessa altura esses grupos já constituíam grandes e fortes
colônias, respondendo por 50% da população e da renda totais do estado,
e alguns de seus representantes atingiam posições de eminência no
empresariado e na política, como o Intendente de Porto Alegre, Alberto
Bins, de origem alemã, que em declarações públicas expressou sua
simpatia pelo Nazismo. Os alemães logo passaram a ostentar suas
preferências políticas em passeatas vestidos de trajes militares e
carregando bandeiras com a suástica, enquanto que os italianos se
ufanavam de sua etnia e conquistas incentivados pelo próprio Mussolini.
Outros ainda aderiam ao Integralismo, de caráter similar.
Apesar da agitação, a economia havia se recuperado bastante bem depois
da crise econômica mundial de 1929. Na verdade ela relativamente pouco
havia afetado o estado, salvo seu setor financeiro, com a falência de
bancos importantes como o Banco Pelotense, o que selou o início de um
longo período de estagnação econômica para Pelotas e outras cidades. Mas
nesta época o Rio Grande do Sul abastecia significativa uma parcela do
mercado nacional com sua produção agropecuária. Tanto é que em 1935,
comemorando o centenário da Revolução Farroupilha, foi organizada outra
grande exposição geral em Porto Alegre, a maior que a cidade já vira.
Além de apresentar os frutos da economia gaúcha para a sociedade, teve
uma seção cultural e foi importante também por ter introduzido no sul a
arquitetura modernista, que doravante iria constituir o principal estilo
arquitetônico empregado no estado até os anos 1980, revolucionando as
concepções do urbanismo gaúcho.
Os movimentos de direita culminaram em 1937 com a criação do Estado Novo
através de novo golpe de estado de Getúlio, que impôs uma Constituição
fascista. A euforia dos descendentes de imigrantes, que se reuniram em
passeatas por vários pontos do estado para aclamar o novo regime, logo
se desfez, pois Getúlio começou a orientar a política em direção à
construção de um senso de identidade nacional, e assim todos os
estrangeirismos começaram a ser severamente censurados, iniciando um
tempo de perseguições e repressão nas colônias, e em vez de
colaboradores no processo de crescimento e povoação os imigrantes
passaram a ser vistos como potenciais inimigos da pátria. O processo
chegou ao extremo com a entrada do Brasil na II Guerra Mundial contra os
países do Eixo, com pesadas consequências econômicas e sociais para a
região de imigração, incluindo as colônias da capital
Na economia a virada foi em direção à unificação do mercado nacional,
com perda de dinamismo regional. Num momento em que algumas indústrias
gaúchas já se projetavam nacionalmente, como a Eberle, a Renner, a Berta
e a Wallig, reversamente se tornava mais fácil a penetração no mercado
gaúcho de concorrentes nacionais. Ao mesmo tempo desaqueciam as
economias coloniais baseadas em empreendimentos familiares, iniciando um
processo de desvalorização econômica dos artesanatos e manufaturas
tradicionais, das indústrias caseiras e dascooperativas. Com esse
impacto negativo sobre as colônias também iniciou o êxodo rural no
estado e apareceram as primeiras favelas em Porto Alegre. Entretanto, o
governo estadual tentou minimizar os problemas através de medidas
protecionistas sobre os produtos exportáveis, investindo no setor de
transportes e simpatizando com as questões do setor produtivo como um
todo, além de criar uma rede de centros de saúde.
Com o fim da II Guerra e com a concomitante deposição de Getúlio, as
instituições democráticas começaram a se restabelecer, e em 1947 foi
eleito um novo governador, Walter Jobim, comprometido com a proposta de
expandir a eletrificação das colônias para evitar o êxodo rural. Para
isso construiu diversas centrais de energia, num programa que teve
continuidade com seus sucessores. Em sua gestão foi aprovada uma nova
Constituição Estadual, ampliando os poderes do Legislativo gaúcho.
Getúlio fora deposto mas manteve seu prestígio, e logo se tornou o líder
do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que teve no estado uma de suas
maiores bases eleitorais. Assim o apelo às massas e ao nacionalismo, e o
combate às tendências de esquerda, continuavam vivos. No estado a
política se dividia entre o Partido Libertador, porta-voz da elite
pecuarista, o Partido Social Democrático, defendendo os interesses da
burguesia agroindustrial, e o PTB, atuando pelo trabalhismo, a nova
versão do populismo getulista, que tinha em Alberto Pasqualini seu
mentor local. Getúlio acabou sendo reeleito para a Presidência da
República, consagrando o trabalhismo como linha de governo.
O suicídio de Getúlio em 1954 foi intensamente sentido no Rio Grande do
Sul, havendo enormes manifestações de rua. Mas sua época parecia ter
mesmo passado, pois poucas semanas após o trágico evento os trabalhistas
perdiam a eleição para governador, assumindo Ildo Meneghetti como um
fenômeno eleitoral até então sem precedentes na política gaúcha.
Descendente de italianos, sua ascensão ao poder máximo do estado foi um
claro indicador de que a discriminação que os imigrantes enfrentaram
durante os anos anteriores havia sido superada. Já fora duas vezes
prefeito de Porto Alegre, onde deixara obra sólida priorizando a
habitação popular. Mas como governador não conseguiu cumprir muitas
metas. O estado estava entrando em uma crise econômica onde, apesar do
crescimento do número de indústrias e da introdução de novas e
lucrativas lavouras como a soja, deixava de ser importador de
mão-de-obra para ser exportador. E a situação de Meneghetti como
opositor do novo presidente Juscelino Kubitschek deixou o estado à
margem dos investimentos federais em plenoDesenvolvimentismo.
Sucedeu-lhe Leonel Brizola, que seguiu pela tradição trabalhista. Seu
governo foi pautado por um Plano de Obras, que tinha como objetivo
melhorar a infraestrutura e ampliar a rede escolar. Encampou empresas
estrangeiras, fundou a Caixa Econômica Estadual do Rio Grande do Sul,
reequipou a polícia, estimulou uma reforma agrária de âmbito estadual,
criando o Instituto Gaúcho de Reforma Agrária, e estimulou a criação de
empresas de porte como a Refinaria Alberto Pasqualini e a Aços Finos
Piratini. Sua atuação mais dramática foi o lançamento da campanha da
Legalidade, em 1961, que levou multidões para as ruas, quando o Palácio
Piratini, onde ele se entrincheirara, foi votado ao bombardeio pelas
chefias militares federais, o que, devido à desobediência dos soldados
gaúchos, acabou não acontecendo.
Cultura
Os primeiros grandes eventos culturais do século XX aconteceram em 1901:
a fundação daAcademia Rio-Grandense de Letras agregando muitos
jornalistas, poetas e escritores, como Caldas Júnior, Marcelo Gama,
Alcides Maia e Mário Totta, e a realização de outra exposição geral em
Porto Alegre, com 3 mil expositores exibindo as tecnologias mais
modernas e os produtos que moviam a economia. Logo em seguida se fundou
o primeiro museu do estado, oMuseu Júlio de Castilhos, criado em 1903.
No mesmo ano ocorreu o primeiro evento inteiramente dedicado às artes, o
Salão de 1903, promovido pela Gazeta do Commercio. Este salão, segundo
Athos Damasceno, foi “o primeiro certame a dar às artes do Rio Grande do
Sul um estatuto de autonomia (…) legitimando-as como objeto de aprovação
e distinção social”. Outro marco foi a fundação de várias faculdades em
Porto Alegre – Medicina, Química, Farmácia,Direito e Engenharia – e mais
do Instituto Livre de Belas Artes, incluindo cursos de música e artes
plásticas, que concentraria a produção de arte na capital e seria no
estado inteiro praticamente a única referência institucional
significativa até meados da década de 1950 nos campos do estudo, ensino
e produção de arte Pelo Instituto passaram alguns do nomes mais notórios
da pintura local desse início de século, como Pedro Weingärtner, membro
de bancas de avaliação, junto com Oscar Boeira, Libindo Ferrás, João
Fahrion e alguns mestres estrangeiros, professores contratados. Também
despontaram mais nomes de peso na literatura e na poesia, comoAugusto
Meyer, Dyonélio Machado e Eduardo Guimarães, além de a atividade da
Biblioteca Pública do Estado, reinaugurada com grandes ampliações em
1922, contribuir significativamente para dinamizar as letras locais
Na música se destacaram as atividades do Club Haydn de Porto Alegre,
organizando muitos recitais divulgando autores europeus e brasileiros, e
complementando as temporadas do Theatro São Pedro, onde se apresentaram
astros como Arthur Rubinstein e Magda Tagliaferro e se encenaram as
primeiras óperas gaúchas, Carmela, de José de Araújo Viana, e Sandro, de
Murillo Furtado. Companhias teatrais e de ópera circulavam com
frequência pelos teatros do interior, pequenos conjuntos vocais e
instrumentais de repertório erudito já existiam em várias cidades, e se
percebia a consolidação de expressões musicais regionalistas e populares
dos hispano-portugueses, dos negros e dos descendentes de imigrantes em
suas colônias. Também é de destacar o ensino qualificado ministrado pelo
Instituto de Belas Artes, onde atuavam o mesmo Viana junto com Tasso
Corrêa, Olinto de Oliveira e alguns outros mestres. O cinema tornava-se
uma moda muito popular e o esportejá contava com clubes como o Grêmio e
o Internacional, que seriam grandes forças no futebol brasileiro anos
mais tarde.